24 de abr. de 2009

Dragão de Ferro

Pólvora. Sangue. Lama.

 

A guerra não tem nada da poesia e fantasia que por tantos anos povoaram a minha mente, contos para assegurar as tolas crianças, até então sem qualquer conhecimento da realidade da morte, de que seus pais voltariam são e salvos, consagrados heróis, como se todos fossem cavaleiros montados no corcel branco da justiça. Por mais insignificante fosse o soldado. Provavelmente fui um dos poucos agraciados, pois tive do meu lado um pai durante todo meu amadurecimento como homem, ele voltou são e salvo da guerra, dispensado por razões nem um pouco heróicas que não me cabe citar no momento. Agora minhas memórias são atormentadas pelos rostos de amigos e inimigos mortos, muitos os quais fui o responsável pela paz que finalmente encontraram em suas faces agonizantes, fazendo o trabalho de um anjo da morte.

 

Temo que meus filhos não terão a mesma sorte que tive na infância, posso apenas imaginar como eles serão quando crescidos, rezar para que enfrentem de cabeça erguida as dificuldades que enfrentarão, principalmente agora que não estarei por perto. Talvez um bom homem tome conta da minha família, como eu faria, ou até mesmo melhor.

 

De todos os momentos que me marcaram na guerra, um em especial deve ser citado antes que eu continue esta carta, certo soldado inimigo que tive o desprazer de “ajudar”. Seu rosto me lembrava do meu pequeno James, ou pelo menos o que restava do rosto, não devia ter mais do que 16 anos, um tiro de espingarda a queima roupa tinha rasgado a parte inferior da sua face, deixando a mandíbula deslocada, pendendo pelos poucos músculos que lhe restava. Ainda me lembro da cena, ele se engasgando no próprio sangue que jorrava incessante da ferida, se não fosse sufocado morreria pela perda de sangue. Durante alguns segundos tentei imaginar quem seria capaz de fazer algo do tipo com um jovem, ou melhor, com qualquer outra pessoa ... Qual dos meus companheiros de armas teria feito aquilo ?

 

O bondoso John ? O corajoso Ryan ? Ou o medroso Emmett ?

 

A guerra realmente trás a torna o pior no ser humano... Dei um tiro no que restava do seu rosto, rezando que fosse o suficiente para por um fim na sua dor, e que ele encontrasse paz no outro mundo.

 

No inicio desta guerra me parecia que seriamos facilmente vitoriosos, cada batalha era vencida com nenhuma perda significativa de nosso contingente. Mas agora...

 

Ninguém nós preparou para enfrentar dragões de ferro...

 

Fui um dos únicos sobreviventes do primeiro embate com a fera metálica, estávamos tão confiantes na vitória, mas desconfio que não matamos um inimigo sequer naquela noite. Apenas corremos como tolos para o abatedouro.

 

Eu corria na retaguarda, por experiência usava os mais afoitos e descuidados como escudo para o primeiro embate, quando fomos tomados por um repentino rugido ensurdecedor. Antes que percebesse que os homens a minha frente caiam como frutas maduras, espalhando o seu “suco” de forma asquerosa pela grama, e me jogasse no chão para me proteger dos próximos cuspes de fogo, pude ver de relance o grande monstro com que eles nós atacaram. Corpo todo revestido do que parecia ser metal, da altura de um homem, provavelmente um pouco maior, e do comprimento de 6 ou mais dos mais fortes soldados. Sua boca tinha uma serie de buracos de onde ele cuspia seus projeteis de fogo, que são capazes de rasgar a pele como manteiga, fui atingido de raspão no braço e agora me falta um naco de carne, numa das feridas mais limpas que eu já vi. Tive a impressão de ver um soldado ou mais operando o dragão metálico, mas depois daquilo nada mais fiz a não ser me manter deitado, apavorado com a cena que se passou rapidamente diante dos meus olhos.

 

Depois de atingido me joguei instintivamente no chão, e por isso consegue me proteger do ataque incessante, que naquele momento atingia todos aqueles que corriam atrás de mim e ainda estavam de pé. O que antes parecia ter durado questão de segundos, agora se estendia por horas, enquanto eu me mantinha deitado, rezando por um milagre, pela felicidade da minha família. Infelizmente não fui capaz de ver nada a mais, o medo não deixava que me arriscasse a ver o que ainda acontecia no campo de batalha. Só percebi que tudo tinha terminado quando fui rendido pelo inimigo, junto com alguns outros poucos sobreviventes.

 

Ao saber que eu era letrado, prontamente pediram que eu escrevesse o que conseguia me lembrar da batalha nesta carta, prometendo poupar não só a mim mas como os outros sobreviventes. Temo que só precisem desta carta e um oficial de maior patente, que suspeito também deve estar escrevendo sua própria versão do acontecido forçado por eles. Isso bastara para espalhar o medo que querem, mas se um dia esta carta chegar em mãos competentes peço para que digam a minha família que eu sinto muito por não poder estar lá nos próximos anos, por terem me perdido numa guerra que agora me parece tão sem sentido e estúpida. Eu rezo para que vocês sejam felizes, eu velarei pela sua segurança do outro mundo.

 

Esse dragão de ferro do qual eles estão tão orgulhosos, parece ser a maquina de guerra perfeita ...


Ass.: J.J. Anderson

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