A cidade de Términus, em toda sua grandeza, era algo perigoso para um visitante. Não apenas por se tratar de um terminal de trocas, a cidade era estrategicamente localizada no condado de Fulton, no interior do país, de modo a interligar as mercadorias que chegavam via mar por Portus, a oeste, e aquelas que vinham das distantes terras de Suassúria, ao sul.
Ikevar sabia dessa periculosidade ao se esgueirar por entre os carros de carga. Se alguém reparasse em seu gibão esfarrapado já seria um atentado à vida, muito pior seria notarem seus olhos verdes como a floresta, a pele pálida a ponto de parecer translúcida e as orelhas pontudas, encimadas por um longo cabelo cor de palha. Aquela certamente era uma cidade humana e um elfo errante não seria bem-vindo.
Sua investida o levava até o castelo de Términus. Tinha que entregar aquela mensagem ao regente local o mais rápido possível, antes que fosse tarde demais, antes que aquelas árvores deixassem de poder contar seus anos e se curvassem a um novo senhor. Que a cidade fosse tomada pelas chamas e depois apenas as cinzas restassem dos corpos escravizados. Para os reflexos de um elfo, as defesas humanas são inúteis, ele entrou facilmente sem ser notado.
O palácio era moribundo, como em todas as cidades humanas, afinal, não abrigava um rei, apenas um regente, pois havia apenas um rei ao qual os humanos serviam, da mesma forma que os elfos apenas se curvavam a uma força na natureza, apesar de respeitarem todas as outras.
- Salve, Mendear, regente de Términus.
- Quem é você e como entrou?
- Meu nome é Ikevar, venho das florestas do leste.
Os olhos do homem cintilaram ao pousar sobre as orelhas do elfo. Até então ele estava apreensivo em seu trono, mas acalmou-se, apoiou os cotovelos e colocou a cabeça sobre as mãos, como uma velha serpente a encarar sua presa.
- E o que a sabedoria da floresta quer com minha cidade?
- É imperativo aumentar suas defesas.
- Não entendo. A cidade prospera, apesar de tudo, e não há ameaça iminente.
- Aquele cujo nome é poder e não se menciona, cujos olhos são negros e não são vistos, cuja face gera temor e não é lembrada. Um inominável almeja suas terras. É um ponto demasiado estratégico para se começar uma guerra.
- E o que acontece se eu recusar?
- Sou apenas um mensageiro, estou avisando do perigo, cabe a vós acatar ou não. Apenas a sua perdição o aguarda se não aceitar o aviso.
- Pois bem. Eu não acredito em baboseiras élficas.
- Isso muito me entristece.
- Mas minhas terras não serão tomadas por bandido algum.
O regente chamou a guarda e eles se prontificaram a guardar os limites da cidade, mal sabendo o que os aguardava.
A lua cheia podia ser um presságio de maré alta, mudanças na plantação, motivo do lamento dos lobos, mas naquele dia ela estava diferente. Um eclipse começara de madrugada e as tochas foram acesas em Términus. Ao longe, ouvia-se o galopar de cavalos e o som da selvageria. O ataque estava para acontecer.
Vindos do norte, das terras desabitadas, vários soltados em armaduras pesadas, pareciam brilhar, refletindo a escuridão, pois não havia luz alguma naquele céu eclipsado, até as estrelas prendiam a respiração. Ladeavam o que parecia ser o comandante, um cavaleiro feroz, domando uma besta negra de crina flamejante, parecia cavalgar desde o inferno. Não era possível ver seu rosto por entre o capacete, tampouco reconhecer suas cores, pois não carregava nenhum estandarte. A única coisa que o caracterizava tão bem era o cheiro da morte.
O exército negro já estava a apenas alguns metros de distância dos muros de Términus e começavam a atirar escadas para subir. Eles não cavalgavam, deviam estar cansados de percorrer todo este caminho em investida. O cavaleiro negro ladeou até o portão e aguardou sobre seu corcel infernal, enquanto suas hordas escalavam os muros e pelejavam com os defensores da cidade.
Espadas brandiam contra armaduras inutilmente. Aqueles guerreiros sedentos por sangue pareciam se deliciar em destroçar corpos apenas com as mãos. Deixando suas espadas apenas para desviar os impactos letais. Entretanto, um deles não foi rápido o suficiente e teve sua cabeça atingida por uma maça-estrela. O impacto retirou seu elmo para o terror de todos, mas o que estava dentro não era humano.
Pele em decomposição, um brilho ectoplasmático esverdeado, restos de cabelo e cheiro podre. Não havia definição para aquilo, havia de ser um ghoul ou coisa parecida.
Eles continuavam a pelejar contra os poucos que não fugiram amedrontados e abriram o portão principal para seu amo do inferno. Ele entrou e cavalgou até o castelo sem a menor resistência, a não ser por uma única flecha que acertou onde deveria estar seu olho por debaixo do capacete. Ele pestanejou e praguejou como um trovão. Tão assustador, parecia que, a qualquer momento, se transmutaria em um dragão e cuspiria fogo ou veneno.
- Este ser... Não é humano, Ikevar. Oras, você entendeu o que eu disse!
O regente suava frio. Sabia que o fim estava próximo e só podia esperar. Olhava nervosamente para o elfo, como se ele não tivesse contado alguma coisa de suma importância, mas ele também sucumbia ao desespero.
- Acho que mesmo eu não posso fazer nada. Tudo o que consegui foi irritar o maldito.
Como se suas palavras o convocassem, o corcel demoníaco irrompeu pela porta do salão real do castelo, atirando os guardas que a protegiam para os lados, junto com pedaços de madeira e ferro. A criatura desmontou e seguiu para Mendear, e uma voz fria surgiu do nada, da escuridão por trás do elmo.
- Mendear, regente humano de Términus. Serei seu senhor e curvarás apenas a mim. Se esta for sua vontade, viverás. Senão, tornar-se-á parte de meu exército imortal.
O homem estava pálido, olhava para o elfo e para o cavaleiro sem saber o que fazer. Seu algoz pareceu compreender a dúvida e resolveu dar uma demonstração. Esgueirou-se até um dos homens caídos que ainda estava consciente e bradou:
- Humano tolo e frágil, olhai nos meus olhos e viverás para sempre sob meu comando. Recuse e irá perecer!
O soldado tremeu, mas abriu os olhos. Ele ficou pálido com o que viu, isso jamais seria contado a alguém. A vida começou a abandoná-lo. Sua pele ficando cada vez mais branca, até visivelmente começar a se decompor. Seus olhos saltaram das órbitas e parte do cabelo caiu. Adquiriu o brilho verde fantasmagórico e suas vestes se transformaram na armadura negra padrão do exército infernal. Era algo entre um cadáver e um esqueleto, em pé e emanando aquela aura de morte. Parado a poucos metros dos espectadores. Ladeado pelo seu novo senhor, ele fazia uma reverência ao se ajoelhar.
- Que diabos!
Isso foi tudo o que Mendear teve tempo de dizer. Ao ver o brilho de ganância em seus olhos, o elfo irredutível fez o que deveria ser feito. A flecha se partira no impacto, mas fora o suficiente para varar metade do cérebro do infeliz.
O cavaleiro estava colérico, tirou seu capacete e encarou o elfo. Este empalideceu o máximo que sua espécie permitia, estava aterrorizado com o que via, mas ainda conseguiu desferir outra flecha inútil contra aquele ser. Ikevar sabia que aqueles seriam seus últimos instantes de vida, quando a luz da lua voltou a iluminar, aos poucos, o salão. Quando o brilho prateado tocou a face desfigurada do cavaleiro, ele começou a evanescer, como se ele mesmo eclipsasse à medida que a lua se refazia. Pouco a pouco suas hordas tomavam o mesmo fim e, tirando o rastro de destruição, seria como se jamais tivessem pisado naquela terra.
Com o medo ainda refletido em seus olhos, como um morto reflete a última cena vivida, Ikevar correu até os limites da cidade e se embrenhou na floresta para nunca mais ser visto. Dizem por aí que suas verdes íris enegreceram, seus cabelos se tornaram brancos como o luar e sua pele adquiriu um tom azulado, assim, por esta sina do medo, se tornou o primeiro elfo das trevas, fadado a vagar para sempre com uma memória que não pode esquecer e o destino de reencontrar o cavaleiro que trará sua derradeira morte, ou não-vida.
21 de jan. de 2009
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