2 de fev. de 2009

Sicut erat in principio

- Estás errado... Messias.
O ser andrógeno, alto, de olhos azuis e cabelos doirados fitava aquele homem rude, como um nômade do deserto. O ser alado demonstrava uma sombra de ruga em sua testa, denotando preocupação e, ao mesmo tempo, certo rancor, o que transfigurava sua tez perfeitamente impecável. Enquanto isso, o homem continuava sentado em seu trono, impassível, mas com a serenidade eterna que lhe cabia.
- Tu, que és luz e filho dela, que diz amar mais a Ele do que eu poderia, fazes tal proposta repugnante? Como podes?
- Eu O amo, não digo apenas, de forma leviana. Mas é justamente meu amor que me move a querer fazê-lo enxergar.
- Então acusas o Pai de ser cego perante sua cria?
- Eu não acuso, apenas... Ora... É inútil. Retiro-me, com sua licença.
- Não deixarei que vá, até que desista dessa idéia tola.
- Então eu, pela primeira vez, devo desobedecer, em nome de minhas convicções e ao arbítrio que Ele me concedeu.
As belas asas, que emitiam um brilho imaculado, abriram sobre as nuvens, sem gerar sombra, pois seu brilho ofuscava quaisquer trevas, e então a criatura voou, atravessou montanhas, se dirigiu à um monte distante, onde encontrou várias outras semelhantes, mas nunca tão belas e nem tão perfeitas.
- Bem vindo, senhor. Como foi a recepção da notícia?
- Ele não colaborará. Está cego por dividir seu amor com os mortais. Acho que ele seria capaz de amá-los mais que ao Pai.
- Isso é... grave, senhor!
- Eu sei, mas é por isso mesmo que atacaremos hoje, vamos tomar o controle e mostrar a Ele o quanto estava enganado e tudo será como antes.
Um brilho de orgulho tilintava nos olhos azuis, tão profundamente azuis que poderia se perder e se afogar, mas eram estes olhos que não podiam ver as coisas mais banais, como o erro iminente.
Alçaram vôo, todos juntos. Toda a falange da luz, emitindo brilho no céu paradisíaco, tal que os mortais encararam aquela noite como a primeira chuva de estrelas, que cobriram o céu e nunca mais voltaram. Quando a falange invadiu a cidade prateada, galgando até os limites do Éden, livremente, pois não havia inimigos ali, apenas os velhos conhecidos e companheiros, encontrou um único obstáculo: aquele homem, que parecia não pertencer aos reinos celestes, o homem de feições mezzo-orientais, jazido na porta do jardim eterno, portando uma espada embainhada, mas nenhuma armadura.
- Em nome do Pai, peço que parem.
- Em nome do bem, peço que vá – o anjo respondeu resoluto.
- Em nome Dele, peço que não cometam uma loucura.
- Em nome do amor, peço que compreenda.
- Em nome de Deus, peço que não me forcem a fazer o que devo.
- Em nome de nosso Pai Celeste, suplico para que pare de usar seu voto em vão. Não desistiremos.
- Então não tenho alternativa.
Ao dizer isso, a espada fora desembainhada, mesmo no topo da cidadela prateada, onde a luz nunca cessava, às portas do Éden, onde a beleza perdura, eterna, tudo se ofuscava. O cabo cravejado de amor, paz e esperança, a lâmina, banhada da bênção maior, emanava o brilho de mil sóis, toda a força Dele, todo o bem do mundo, o mal pereceria sob aquele peso implacável, não importa sob que forma se escondesse.
- Lúcifer, renda-se.
- Não, jamais permitirei que meu amor seja derrotado, de modo que o Pai continue sob efeito dos ludíbrios traiçoeiros de sua cria.
Nesse instante, todas as demais falanges surgiram, imponentes. Aguardavam o comando do homem, do Messias, mas ele só estava parado segurando a luz, o sol, o brilho que ofuscava todos os anjos, como se estes fossem meros humanos sem brio.
Arcanjos Miguel e Gabriel se aproximaram e ladearam seu comandante e, por sua vez, sacaram suas próprias espadas, feitas de fogo celeste, entalhadas na pureza e na beleza, feita dos segredos de paz e das juras de bondade.
A tensão foi quebrada por um grito de Lúcifer:
- Esta espada jamais me ferirá, pois em mim o mal não habita, apenas o amor!
O ataque foi fulminante, durou meros segundos que pareceram eternos. Correndo em direção à lâmina, o anjo de luz encontrou sua rival. Uma luz ainda maior, apesar de não feri-lo, açoitou-o para baixo e as nuvens cederam sob o peso dos mundos, a força arrebatadora do arremesso. Todos os demais se renderam imediatamente, mas o estrago já estava feito.
Enquanto caía e se desfigurava, as asas sendo dilaceradas pela pressão do vento, os olhos, lábios e cabelos chamuscados pelo fogo do atrito, o belo rosto danificado pelo impacto com a terra firme, os ossos aleijados e deformados, mas uma lágrima escapara e se perdera, eternamente, no percurso. Ele sabia que estava errado, e mesmo a eternidade não compensaria o seu remorso.
A cratera gerada pela queda fora gigantesca. Os céus jamais viram uma rebelião em toda sua eternidade, mas o castigo fora demasiado grande para haver outras. Os demais anjos rebeldes tiveram suas asas arrancadas e foram arremessados ao abismo de Lúcifer. Claro, não com a mesma força, então, apesar da dor causada pela perda das asas – as feridas eram terríveis e pendiam sangue dourado – não foram tão deformados quanto seu irmão.
A falange caída mendigou a existência e criou, ali, seu próprio simulacro de paraíso, com uma realidade tão distorcida pelo sofrimento, que ficou conhecida como Inferno, e lá acolhiam todas as almas expulsas do Éden.
No centro do buraco, mesmo hoje, milhares de anos após o episódio conhecido como A Queda, o lugar mais escuro da cratera ainda é iluminado por uma pálida chama fantasmagórica, emanada por uma criatura distorcida e fadada a se lamentar eternamente. Enquanto chora, rumina a traição com suas três bocarras. Quando um outro caído vem lhe propor a ambiciosa retomada do céu, ele simplesmente responde:
- Os errados somos nós. Se quiserdes tomar o que não lhe convém, entrai em uma de minhas bocas, que hei de ruminá-lo até que se desfaça, se recomponha, sofra e se desfaça novamente, para que possa sentir como é a dor dos que foram traídos. Pois apenas um traidor de si mesmo pode entender o que eu sinto dos dois lados da angústia.
Dizem, nas lendas humanas, que quando os viajantes passam pela região do Mediterrâneo, onde o mar invade a terra, clamando seus sulcos e aliviando sua dor, é possível ouvir uma prece ao cair da noite. Uma voz triste, porém extremamente bela, eternamente a repetir:
- Agnus dei qui tollit peccata mundi miserere nobis, dona nobis pacem. Ecce qui fiat misericordie, benedictus in nomine domine, miserere nobis peccatoribus. Pater noster, dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostri. Adveniat regnum tuum et sed libera nos a malo. Amen.

2 comentários:

CattyEcologia disse...

curioso esse texto...
bem...

quem foi o autor?

João Paulo Borges disse...

Os autores de cada texto são aqueles que o postaram, no caso, o autor sou eu mesmo...
leia o prefácio para mais detalhes, ok?